Minha primeira namorada chamava Cristina. Ela tinha doze anos e eu treze. Estávamos ainda no ginásio. Ela estudava em colégio de freiras, e eu no colégio de padres. Pena que não podíamos nos encontrar no banheiro da escola. Conheci Cristina na fila do cine Roxy, em Copa, aonde nós morávamos. Ela morava na Miguel Lemos e eu na Cinco de Julho.
Me apaixonei por Cristina à primeira vista. Logo começamos a sair, e eu a pedi em namoro, prontamente atendido por ela. Eu saía da escola e ia para a casa dela. Ficávamos na rua , entre os carros nos amassando, e saboreando aquele tesão de adolescentes, que me proporcionava a sensação de ser um gigante do sexo. Não sei se vocês estão entendendo bem o que eu estou falando. A coisa ficava de doer. Nos beijávamos, e não queríamos mais nos largar dos braços um do outro. Era uma coisa que parecia que seria eterna. Nada nos perturbava, nem mesmo as passeatas de estudantes, que surgiam como relâmpago naqueles tempos. Volta e meia havia uma, na N. Senhora de Copacabana, e nem isso nos atrapalhava. O nosso negocio era amor, e nada mais.
Cristina era morena de cabelos castanhos. Tinha um sinal, uma pinta como se chamava na época, em cima dos lábios. Apesar da pinta, era um doce de pessoa. Um encanto, uma mulher cheia de ternura, e muito atenciosa também, qualidade rara que depois dela eu encontrei em poucas mulheres. Passeávamos todas as tardes na praia de Copacabana, de mãos dadas, e nos beijávamos o tempo todo. Afinal, namoro era para isso. Ninguém pensava ainda em casar.
De vez em quando, Cristina resolvia passear com seu cachorro, um boxer, que me assustava por demais. Mesmo assim, pelo que eu pensava ser amor na época, eu passeava com ela, preocupado que aquele cachorro enorme me desse uma mordida. Mas amor é amor, e eu ia cheio de falsa coragem, passear com aquela mala a tiracolo, o cachorro é claro. Nem me lembro o nome dele.
Vocês sabem com é que é, o cachorro ia fazendo xixi pelo caminho, eu acho que ate de uma forma exagerada. Cheguei mesmo a pensar que ele tomava algum diurético. Porém, o problema dele não era esse. A questão é quando fazia…. hummmm.. como é que eu vou dizer…. cocô. Ele mais parecia um cavalo. Era uma montoeira de mer-da, que eu chegava a me assustar. Não sei exatamente porque, mas aquilo me fazia ter um mal pressentimento. Naquele época não era comum você retirar a sujeira do cachorro da rua. Ficava ali mesmo.
Um belo dia, passeando novamente com aquela beldade, o distinto larga aquela montoeira na esquina da Miguel com Aires Saldanha. Continuamos o passeio, eu vivamente constrangido com a merda que o tal fazia. Era demais. A quantidade era anormal. Na volta, distraidamente, Cristina pisa na montoeira que seu bravo cão havia feito na esquina. Isso.. no mesmo local. Parecia até castigo. Seu pé chafurda na merda, e recobre aquele pezinho tão lindo. Minha irritação com o cão foi evidente. Só não dei uma corrida nele porque tinha mais medo do que raiva. Aturei aquilo calado, mas minha face dizia tudo o que eu sentia naquele sórdido momento.
Não sabendo o que fazer, Cristina olha para minha cara, com aquele ar tão meigo no rosto, e me pede que faça alguma coisa. Claro que eu não pensei em colocar a mão ali, na merda. Criativo que sou, peguei aquela batata da perna, e esfreguei no cimento do poste mais próximo, revirando-a carinhosamente para que seu pezinho ficasse o mais limpo possível, em todos os seus possíveis ângulos. Claro que não adiantou muito. A sandália continuava suja, ao menos na sola, e eu não estava disposto a maiores esforços para limpar aquela cagada. Desculpem o termo, mas não fui eu que a fiz. Foi o danado do cachorro.
Voltamos para a casa dela, com algum cuidado para não emporcalhar a portaria, e a levei diretamente para o banho, a fim de faze-la se livrar daquela cagada. Desculpem o termo novamente. Banho tomado, e cachorro devidamente preso na cozinha, voltamos para o sofá, e agora sim, estávamos namorando naquele sofá de quatro lugares, que não se faz mais. Um verdadeiro conforto.
Primeiro amor é isso aí.